abril 27, 2004

José Malhoa (1855 - 1933)

Quadros deste pintor na Galeria de Pintura:
Outono
Praia das Maçãs
O Fado
Os Bêbados ou Festejando o S. Martinho
Clara

Malhoa, de seu verdadeiro nome José Victal Branco Malhoa, nasceu numa família de agricultores, nas Caldas da Rainha. Cedo evidenciou qualidades artísticas; e assim, muito novo, seguiu para Lisboa para aprender o ofício de entalhador na Escola de Belas-Artes. Contudo, por indicação do artista Leandro de Sousa Braga, o irmão inscreve-o na Real Academia de Belas-Artes em Outubro de 1867. Aqui haveria de prosseguir estudos durante 8 anos, obtendo as melhores classificações.

Na Academia, foi aluno do mestre romântico Tomás da Anunciação, que o iniciou na pintura de paisagem – a grande paixão da sua vida –, de Miguel Ângelo Lupi e de José Simões de Almeida, entre outros. Ainda estudante, passava as tardes a desenhar os arredores de Lisboa, sobretudo a Tapada da Ajuda e Campolide. Assim que acaba o curso, decide concorrer a pensionista do Estado com o fim de ir estudar para fora. Mas não é admitido (só realizará a primeira viagem a Paris em 1906). Decide então empregar-se na loja de confecções do irmão, onde ficará três anos.

É desta época a obra Seara Invadida (1881), que envia a uma exposição em Madrid, onde obtém o melhor acolhimento. Entusiasmado, e apesar de ter entretanto casado, Malhoa decide deixar a loja do irmão e consagrar-se inteiramente ao ofício de pintor. Ainda antes de 1885 chegam as primeiras encomendas artísticas: um tecto para o Real Conservatório (A Fama Coroando Euterpe) e outro para o Supremo Tribunal de Justiça (A Lei) são alguns exemplos.

Nesse ano, o pintor Silva Porto regressa a Lisboa, vindo de França, onde fora aluno de Daubigny, e recebe na Academia a cadeira de Pintura de Paisagem, que entretanto tinha vagado. À sua volta, na Cervejaria do Leão, em Lisboa, reúne-se em breve um grupo de artistas dos quais Malhoa faz parte. Esta tertúlia, o Grupo do Leão, que discutia temas relativos à prática artística, influenciou decisivamente a opção de Malhoa pela pintura de ar livre. O Paul da Outra Banda, pintado ainda em 1885, é desta um bom exemplo.

Pouco tempo depois, adquire casa de Verão em Figueiró dos Vinhos. É aqui que descobre os temas populares que sempre o encantarão ao longo da vida. Procissões, cenas campestres, camponesas saudáveis e garridas, animais que pastam, pontuam uma pintura que se vai dedicar a transmitir uma imagem do Portugal sentimental e bucólico que outros tratarão na literatura. Trata-se de pintura naturalista; mas de um naturalismo sem maniqueísmo nem luta de classes, mais próximo de A Cidade e as Serras que de O Germinal – mais próximo do Portugal atrasado desse tempo que da Inglaterra ou da França já industrializadas. Diogo de Macedo, historiador que se debruçou sobre a sua obra, chama-lhe um «historiador da vida rústica de Portugal».

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Retrato de D. Laura Sauvinet, 1888
Óleo s/ tela, 100 x 70 cm

A partir de 1888, Malhoa interessa-se pela pintura de história. Realiza Partida de Vasco da Gama para a Índia, 1.º prémio no Concurso para Quadro Histórico promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, e O Último Interrogatório do Marquês de Pombal. Do mesmo ano datam os primeiros dos inúmeros retratos que pintou; o mais célebre, considerado pelo próprio como a sua obra-prima, é o Retrato de D. Laura Sauvinet, que era sua aluna.

Em 1906 já é plenamente reconhecido como um dos mais importantes pintores portugueses do seu tempo. Obras suas são apresentadas na Exposition Universelle de Paris em 1900, pelas quais recebe a medalha de prata Grupo II – Classe VII. Esta foi aliás apenas uma de muitas distinções com que, durante toda a vida, a sua obra foi agraciada. Neste sentido, outras datas importantes são 1901, ano em que é fundada a Sociedade Nacional de Belas-Artes, da qual Malhoa é nomeado sócio honorário, e 1928, quando é aceite como membro da Academia Nacional de Belas-Artes.

Em 1906, o pintor realiza uma viagem ao Brasil, a convite do Real Gabinete Português de Leitura. Aqui deixará uma das suas obras mais importantes, Clara (hoje no Museu do Chiado, em Lisboa), retrato de uma das pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis, e, decerto, síntese de toda a obra do pintor. Clara é aqui uma rapariga minhota cheia de saúde e vida, alegre e jovem, inserida em paisagem seareira de igual vigor. A partir desta data, contudo, a pintura de Malhoa vai progressivamente escurecer, e o pintor vai optar, pontualmente, por temas mais dramáticos. Festejando o S. Martinho (ou Os Bêbedos), de 1909, e Fado, do ano seguinte, são alguns exemplos deste facto.

Malhoa, que apenas tem a sua primeira exposição retrospectiva em 1928, continuará a pintar incansavelmente até à data da sua morte. Mantendo-se alheio às questões que agitam o mundo artístico durante as duas primeiras décadas do século, simboliza ainda hoje uma qualidade certa, sem inquietações, universalmente aceite. As cerca de 2000 obras de desenho e pintura que deixou, entre paisagens, retratos, pinturas de história, cenas religiosas e cenas de género, testemunham a sua extraordinária versatilidade. Mas, ao mesmo tempo, são as testemunhas de um mundo que, à data da sua morte, já tinha terminado – e artistas mais novos não deixaram de o notar, opondo-se com vigor ao «estilo Malhoa». Em 1933, ainda em vida do pintor, é criado o Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha.

Fonte: Luísa Soares de Oliveira, In ArtLink.

Posted by xicologo at abril 27, 2004 12:43 PM
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