abril 27, 2004

Abel Manta (1888 - 1992)

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LISBOA E O TEJO

UM CRIADOR ALHEIO AO MUNDANAL RUÍDO
Sendo um os nomes cimeiros da arte portuguesa do século XX, Abel Manta é quase um desconhecido para as novas gerações. E é-o, desde hoje, pelo natural feitio, discreto, bondoso, embora sempre irónico na sua maneira de falar dos homens e das situações; e também pela sua recusa em realizar exposições individuais que o levariam ao primeiríssimo plano a que tem direito.
Preferiu sempre uma vida pacata, simples, sem gestos retumbantes. Na vida e na obra. No entanto, e durante muitos anos, foi uma figura característica e familiar do Chiado. Era natural, encontrá-lo n'A Brasileira ou na Livraria Sá da Costa, todos os dias à tarde. Com velhas e novas amizades. Ainda hoje, nos seus 92 anos de idade, se já não frequenta aqueles sítios dá, com sua mulher Clementina, uma pequena volta pelo bairro.
É que mora, há tempos, na Rua Nova do Loureiro. Das janelas de casa, do cimo do Bairro Alto, a cidade oferece-se na sua peculiar paisagem, que tantas vezes passou para a tela. Pintor de Lisboa, preferentemente no Largo de Camões, que ao longo da sua carreira reinventou mais de uma vez, com admiráveis variações de luz mas sempre exprimindo uma ternura secreta, uma cálida atmosfera intimista, uma tocante sinceridade, que são como que o selo da sua peculiar sensibilidade. Mas também fez incursões pela natureza morta e pelos retratos, com o mesmo afã de síntese e comovida visão.

Uma obra severamente construída
Agarrado aos objectos naturais e às pessoas, Abel Manta transporta para a tela as impressões que lhe produz o mundo que o rodeia. Cenas humildes da vida quotidiana, dos amigos e familiares. Sempre atento a estes elementos, mas sem se deixar comover pelos pormenores, com o mesmo entusiasmo de manifestar através deles a sua própria emotividade. Não é a sua, porém, uma pintura confessional, e, uma vez que algo do artista sempre está presente no quadro, isto nota-se como síntese de conjunto das obras e cumpre-se depois na mente do contemplador. São as suas imagens serenas, carregadas de uma vitalidade surgida do ser ou da coisa que o atraiu. Olha, estuda os seus modelos possíveis, extraindo deles os ritmos interiores, rigorosos e sóbrios que se advertem nas suas composições.

Dois aspectos da sua criação
Há duas linhas nítidas na trajectória plástica de Abel Manta. Por um lado a que inicia com o seu quadro «Geneviève» (1922), que poderia chamar-se da expressão branda, surgida ao arrimo do pós-impressionismo. O traço é aberto, os ritmos lentos, a cor opulenta, a matéria generosa. Uma atmosfera sensual e um espaço táctil são as características mais evidentes. Esta tendência prolonga-se ao longo dos anos e encontra-se em 1926 no quadro «Funchal». O autor sofre a influência «fauviste» no modo de resolver rapidamente as formas e na abolição do espaço tradicional, mas conserva a matéria densa, movimentada e fortemente colorida. Nas variações sobre «Largo de Camões», que ao mesmo tempo são uma testemunha valiosa dos diferentes arranjos verdes da popular praça, dos anos 1939-46, de 1955 e 1964, encontra-se ainda esta posição captando a luminosidade outonal e da Primavera com requintados acentos poéticos.
A outra linha que caracteriza a pintura de. Abel Manta é constituída pela expressão dura, onde predomina a influência do cubismo e do sólido naturalismo italiano. É aquela que parte da sua tela «As maçãs» (1925); seguindo o exemplo de Cézanne, as formas são reduzidas a uma síntese planista. O pintor indica o movimento, deixando que a vista do espectador supra com a imaginação a verdadeira acção. As formas estão aí, sem dramatismo, aptas a serem descobertas, pois não querem despertar emoções imediatas. A expressão psicológica é medida. «Retrato» (1930), «Estudo» (1931) e o excelente «Retrato do violinista René Bohet» (1932) são paradigmáticos desta orientação.
Posteriormente Abel Manta frequenta o tema dos retratos e chega a um certo estereótipo das atitudes, por momentos de uma certa rigidez, mas há sempre uma nobreza no ofício e uma limpeza no tratamento plástico que são sinais inequívocos da sua modernidade.

Desenhos inéditos
Se a pintura de Abel Manta tem tido escassa divulgação pública, tal se deve às poucas exposições individuais que realizou. A última retrospectiva (parcial) foi na Sociedade Nacional de Belas Artes, 1965. Mas há um aspecto da sua produção que poucos conhecem: e a série de desenhos. Desenhos à tinta, de pequeno formato, aos quais, guardados numa gaveta, o artista não dá importância alguma. São, não obstante, duma prodigiosa fecundidade inventiva, comum alarde de imaginação gráfica, uma argutíssima recriação do mundo e dos seus habitantes.

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MULHER DA NAZARÉ


BIOGRAFIA BREVE
Nascido em Gouveia, a 12 de Outubro de 1888, Abel Manta veio para Lisboa auxiliado pela condessa de Vinhó e Almedina. Na capital entre 1904-1916, frequentou a Escola de Belas Artes, concluindo o curso de Pintura e tendo sido discípulo de Carlos Reis. Em 1919 partiu para Paris onde chegou a expor no Salon de la Societé Nationale e noutras galerias. Permaneceu aí vários anos. Realizou algumas viagens de estudo pela Europa, principalmente pela Itália. Em 1926 voltou a Portugal e ingressou no Ensino Técnico como professor de desenho na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Participou no primeiro Salão de Arte Moderna em Lisboa (1935), ao lado de Eduardo Vianna, Mário Eloy, Carlos Botelho, António Soares, Jorge Barradas e Francisco Smith, entre outros renovadores do ambiente artístico português. Concorreu à XXV Bienal de Veneza e à III Bienal de S. Paulo, e participou em todas as importantes exposições colectivas do País, entre as quais as I e II exposições de Artes Plásticas da Fundação Gulbenkian, onde lhe foi conferido o Prémio de Pintura. Em 1958, aposentado por limite de idade das suas funções pedagógicas, passou a dedicar-se exclusivamente à pintura e ao desenho. Está representado com excelentes peças no Museu de Arte Contemporânea e na Fundação Gulbenkian, onde presentemente, na Antevisão do Centro de Arte Moderna se pode admirar uma sensível tela sobre o Largo de Camões.
Personalidade de um raro pudor no mundo das artes, sempre autêntico e frontal num mundo voltado para o sensacionalismo e para a pompa Abel Manta reflecte na sua obra essa dicotomia resolvida numa superior unidade estética, isto é, a densidade expressiva veiculada numa economia de recursos operativos.
Clementina Carneiro de Moura, sua mulher, também é uma singular pintora. Discípula de Columbano, evidenciou um temperamento quase expressionista nas suas naturezas mortas, flores e paisagens. Tal como acontece com o marido, tem sido injustamente postergada. Só espaçadamente, numa colectiva, em algum museu ou colecção particular, pode ver-se alguma obra sua. Parece chegado o momento de revisitar a extensa produção deste casal de artistas que é, em boa parte, uma porção da história da pintura portuguesa do nosso século.

Fonte: Nelson Di Maggio, in Jornal de Letras, Artes e Ideias; Nº 12, 1981

Posted by xicologo at abril 27, 2004 11:05 AM
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